Foto: Ernesto Esteves.

 

O reitor da Universidade Sénior de Setúbal (UNISETI) e presidente do Conselho Geral das Universidades Seniores, Prof. Brissos Lino, apresentou uma comunicação na última Assembleia Magna da RUTIS , no passado dia 7 de Novembro, em Almeirim. Pode ler aqui o texto completo.

Aquilo que começou por ser uma tímida experiência desenvolvida nos anos setenta, em França, veio a tornar-se um movimento crescente, cada vez mais significativo e ousado, de tal modo que actualmente ninguém sabe muito bem de que forma irá ainda evoluir nos próximos tempos.

A verdade é que as academias e universidades seniores constituem hoje uma rede de promoção da pessoa idosa, um pouco por todo o país, desenvolvendo as Artes, a Cultura, a Educação, o Artesanato, os Saberes, o Turismo e a Saúde, para falar só de algumas vertentes, sem esquecer, naturalmente a importante actividade de voluntariado que lhes é inerente e que é sempre bom sublinhar.

Gostaria de partilhar convosco algumas preocupações com o futuro das UTI’s, que resultam da minha actividade nesta área, mas também de observação e reflexão sobre estas matérias.

Desde logo, preocupa-me a presente e persistente crise económica, que se pode traduzir em constrangimentos de diversa ordem para a participação nestes projectos, seja pela via do factor económico, seja em razão da indisponibilidade de tempo, tanto de professores como dos alunos.

Muitos avós poderão ter que ficar a tomar conta dos netos, sem liberdade de acção, por os pais não poderem pagar as creches e jardins-de-infância. Muitos outros estarão a ajudar os filhos, desempregados, com as suas pensões e reformas, privando-se assim de poder continuar a frequentar as universidades e academias seniores.

Disse há dias a Drª. Joaquina Madeira, Coordenadora do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, a propósito do Dia Mundial da Terceira Idade: “Nestes momentos de dificuldades são os mais velhos que podem ajudar em vários sentidos, não só a nível económico, como de acompanhamento, de ter mais disponibilidade para os mais novos e cuidar dos mais dependentes”.

É que não se trata só das dificuldades do presente, mas também, e sobretudo, do receio pelo futuro que pesa na idade avançada, quando se sente mais a fragilidade pessoal e a falta de apoio. Tal ansiedade e insegurança pode também vir a condicionar de forma significativa a adesão ou a continuidade de muita gente nos projecto das UTI’s, limitando assim a acção e o regular funcionamento destas instituições, que vivem das pessoas e para as pessoas.

O progressivo adiamento da idade da reforma ameaça igualmente vir a tornar-se impedimento para que os cidadãos participem, de forma que quando chega a aposentação já as pessoas estejam demasiado cansadas para se disporem a encetar um novo capítulo no seu projecto de vida.

Ou seja, que exista então uma significativa falta de autonomia dos seniores por défice de qualidade de vida. Pode suceder um fenómeno semelhante ao do nosso organismo que, quando não se alimenta na devida altura, vai perdendo a vontade de se alimentar passado o tempo certo para o efeito.

Mas preocupa-me também uma eventual legislação futura desajustada à realidade. Habituamos que estamos à forma corrente de legislar, ocorre-nos alguma preocupação (pré+ocupação) pela possibilidade de um dia o governo vir a querer legislar sobre a actividade das UTI’s sem conhecer de perto a realidade no terreno. Infelizmente estamos habituados a legisladores que estabelecem os seus quadros legais sem sair dos gabinetes.

Alerto aqui para essa possibilidade, que deve ser prevenida por nós e vigiada de perto, do ponto de vista da cidadania, para que não se venha apenas a estragar o bom que existe, mas que, além de não trazer quaisquer benefícios práticos ainda provoque dificuldades burocráticas e funcionais, perfeitamente desnecessárias, ainda que padeçamos tradicionalmente de muita legislação e pouca aplicação da lei.

Fica, porém, o alerta.

Olhando agora para uma perspectiva positiva e construtiva da vivência sénior, destacaria três eixos de trabalho que me parecem importantes e merecedores de reflexão por todos nós.

Por um lado será importante aproveitar as condições gerais existentes para desenvolver a preservação da qualidade de vida, apostando assim no seu prolongamento, e consequentemente na máxima autonomia física, mental, emocional e relacional da pessoa idosa.

Quando falo em autonomia relacional da pessoa idosa ligo-a às outras vertentes, em especial a mental e emocional, pois, de acordo com o Censo de 2011, sessenta por cento da população idosa vive sozinha (400.964) ou na companhia exclusiva de outras pessoas com 65 ou mais anos (804.577). É notória, portanto, a necessidade de combater o isolamento e a solidão.

A qualidade de vida não cai do céu, é fruto de diversos factores, alguns deles exógenos à pessoa, mas também radica na vontade de cada um. Tem que se fazer por isso. Está na mão de cada um preservar a saúde e a qualidade de vida, combatendo os factores que militam contra ela: o sedentarismo, o isolamento, a falta de convívio social, o embrutecimento conformista, a falta de um projecto de vida próprio, a sensação de inutilidade, a preservação da sua identidade pessoal e a construção do seu devir.

Por outro lado é fundamental assumir e aprofundar o desempenho do papel social do idoso. O conceito de que a pessoa idosa já não conta, a não ser talvez para desempenhar pequenas tarefas domésticas ou familiares tem que ser combatida com toda a frontalidade. Ir buscar os netos à escola, ajudar os filhos em tarefas diversas ou fazer pequenos recados, apesar de representar um dado grau de satisfação, todavia, em si mesmo e só por si não será projecto de vida para ninguém.

Nas Artes, na Cultura e nos Saberes os idosos sempre foram activos, ao longo da história. Algumas das mais relevantes obras-primas da cultura universal foram criadas por pessoas que na época estavam na casa dos setenta e dos oitenta anos. Miguel Ângelopintou a cúpula do Vaticano depois dos oitenta anos, Goya pintou aos setenta os “Fuzilamentos de 3 de Março”, Cervantesescreveu a segunda parte de D. Quixote aos 68 anos e Verdi compôs o “Falstaff” aos 76. Diferentes casos de uma genialidade pouco comum, que pode e deve servir de inspiração e exemplo para todos os idosos com vontade de aprender e de ir mais além.

O idoso tem um papel social a desempenhar que cresce na mesma medida em que cresce a sua faixa etária. Mas não só. Uma das maiores chagas da cultura ocidental é a glorificação da juventude e a menorização dos mais velhos. Glorifica-se a condição juvenil, por vezes de forma lamechas e idiota, como se ser jovem, só por si, fosse uma virtude. Basta olhar para os números da delinquência juvenil para entender que não é assim.

Mas o maior problema, que representa mesmo um tiro no pé da sociedade ocidental, é o persistente desperdício da experiência, das competências, da memória, dos conhecimentos, do know-how e da sabedoria de vida da pessoa idosa. Não se compreende que assim seja. Perdemos todos, perde a comunidade.

Assim, há que reinventar o papel social do idoso neste mundo em mudança acelerada.

Mas também na família a pessoa idosa necessita de superar os estereótipos culturais associados à idade mais avançada, seja pela via de um certo paternalismo dos filhos e netos, ou de outras pessoas, seja em razão do idadismo, uma forma de discriminação social ainda muito presente na sociedade.

Fala-se hoje muito em empreendedorismo sénior. Pode ser uma área em desenvolvimento, apesar de alguma falta de instinto de iniciativa, dos constrangimentos burocráticos ou da falta de estímulos apropriados para o efeito.

Finalmente, creio que a pessoa idosa em Portugal tem que tomar consciência de que deve adquirir força e expressão políticas, de forma a poder intervir na definição de políticas para a sua faixa etária. As sociedades contemporâneas representam hoje um conjunto de interesses diferentes e por vezes divergentes que se entrechocam, sabendo nós que cada grupo de interesses tem que zelar por si na defesa dos mesmos.

Não estando a pessoa idosa sindicalizada – por já não estar integrada na chamada vida activa – e não estando a esmagadora maioria envolvida na militância dos partidos políticos, deixa de estar “visível” para quem governa, que assim tende a desinteressar-se das suas opiniões, necessidades e anseios, por mais legítimos que sejam.

Sendo assim, há que encontrar novas formas de representação e intervenção política, através das quais os interesses desta faixa etária sejam salvaguardados e defendidos. Trata-se de um novo desafio.

Termino com uma palavra de esperança. Apesar de tudo há sinais encorajadores neste panorama como, por exemplo, os jovens e outras pessoas desempregados que desejam fazer voluntariado nas UTI’s, o que não só é encorajador, como vem no sentido da intergeracionalidade, bem expressa na temática do ano corrente.

Outro sinal interessante é o facto de recebermos pedidos constantes de pesquisas e aplicação de questionários por alunos do ensino superior, assim se demonstrando existir uma atenção crescente no estudo dos fenómenos inerentes a esta faixa etária.

Termino com uma provocação. Há que reinventar o conceito de “ser idoso”. Confúcio perguntava: “Qual seria a sua idade se não soubesse quantos anos tem?” Por outras palavras, a idade não é uma condenação, mas um mero referencial. Há que fazer o melhor que se pode com aquilo que se tem.

A vida não é estática. Caracteriza-se pelo movimento. Como diz o famoso slogan publicitário: “Circular é viver”. Ou, dito de outra forma, se queremos ter vida e vida com qualidade, nunca nos conformemos, adoptemos o espírito olímpico que nos interpela a ir sempre mais longe, mais alto e a sermos mais fortes.

E se ainda tiverem dúvidas, então perguntem se isto não é verdade ao cineasta Manoel de Oliveira.

Brissos Lino

Presidente do Conselho Geral das Universidade Seniores

Reitor da Universidade Sénior de Setúbal